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High Trust Society

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Esses dias eu me deparei com o conceito “High Trust Society”, ou em português Sociedade de Alta Confiança. O termo foi cunhado pelo cientista político Francis Fukuyama em seu livro de 1995, Trust: The Social Virtues and the Creation of Prosperity, no qual ele descreve a confiança como um elemento fundamental do capital social — essencial para a coesão das comunidades, vital para a cooperação eficaz e crucial para o — desenvolvimento da sociedade. Mas como a confiança interpessoal influencia o desenvolvimento de uma sociedade?

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Compartilhamento de pessoas que concordam que “a maioria das pessoas pode ser confiada”, 1984–2022. Fonte:Our World in Data.
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Confiança nos outros vs. Percepção de que os outros tentariam tirar vantagem. Fonte: Our World in Data

Ao observar esses gráficos percebemos que os países mais “confiáveis” tendem a ter maiores atividades econômicas e a ser mais desenvolvidos — a Dinamarca e a Suécia passam dos 70%, enquanto o Brasil segue abaixo dos 25%, entre os mais baixos do mundo. Em seu artigo de 1972, “Gifts and Exchanges”, Kenneth Arrow, que recebeu o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas no mesmo ano, observou que praticamente todas as transações comerciais têm em si um elemento de confiança. Ao aprofundar essa relação com dados mais detalhados e análises econômicas, pesquisadores sugerem que a confiança impulsiona efetivamente o crescimento econômico — e não está apenas correlacionada com ele.

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Geração de eletricidade, em terawatt-hora. Fonte: Our World in Data.

O problema é que o PIB pode ser manipulado de várias maneiras. Um estudo de 2022 do economista Luis Martínez, publicado no Journal of Political Economy, comparou o PIB declarado por regimes autoritários com a luminosidade noturna capturada por satélites — uma medida muito mais difícil de falsificar — e descobriu que essas ditaduras superestimam seu crescimento econômico em até 35% ao ano. A produção de aço, o consumo de eletricidade e a taxa de criminalidade são, pela mesma lógica, — indicadores muito mais difíceis de maquiar do que um número de PIB anunciado em rede nacional.

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Taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Fonte: Our World in Data / UNODC.

Vale a pena confiar num governo que não entrega crescimento real nem melhores condições de vida? A maioria de nós já passou por isso: é um desafio participar de transações em que não existe confiança na outra parte.

Essa desconfiança institucional aparece com clareza no Edelman Trust Barometer 2024, que mede a confiança da população em seu próprio governo. O Brasil aparece entre os três países com menor confiança — institucional do mundo — atrás até da Venezuela. Curiosamente, quem lidera o ranking é a China, o que sugere que confiança institucional e confiança interpessoal nem sempre andam juntas: é possível confiar (ou ser levado a demonstrar confiança) no governo sem necessariamente confiar no vizinho, e vice-versa.

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Confiança institucional no governo. Fonte: Edelman Trust Barometer 2024.

Essa desconfiança não nasce no vácuo. O Índice de Percepção de — Corrupção 2025, da Transparency International, colocou o Brasil em 35 pontos numa escala de 0 a 100 — a 107ª posição entre 182 países, abaixo da média das Américas (42) e bem distante dos primeiros colocados.

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Índice de Percepção de Corrupção. Fonte: Transparency International, CPI 2025.

E quando uma sociedade perde a confiança, é preciso muito esforço para recuperá-la. Talvez seja por isso que o Brasil tenha perdido cerca de 7 mil cientistas para o exterior nos últimos anos, segundo estimativas do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) — pesquisadores que não viram motivo para apostar num país que não consegue nem sustentar suas próprias instituições de ciência.

E como recuperá-la?

A resposta pode ser nada menos que uma mudança geracional — ou uma guerra civil. Seja como for, não será um processo rápido. Por mais que a gente ame o Brasil, será que o Brasil nos ama de volta? Muitos eleitores de Esquerda respondem aos eleitores de Direita chamando-os de “fascistas, racistas, extrema-direita” e por aí vai. A resposta dos eleitores de Direita aos eleitores de Esquerda costuma ser bem parecida. Nada disso cria confiança na sociedade. Nada disso nos aproxima do nosso vizinho.

E isso não é só um problema brasileiro. Em fevereiro de 2026, o próprio Fukuyama — o autor que classificou os Estados Unidos como o exemplo clássico de “sociedade de alta confiança” — publicou um ensaio admitindo que esse não é mais o caso: a polarização política americana, acelerada pelas redes sociais, corroeu a mesma confiança interpessoal que ele — descreveu trinta anos antes. Se até o protótipo da alta confiança está — rachando, talvez o problema não seja exclusivamente brasileiro — talvez seja o preço que toda sociedade paga quando a “cultura do medo” vira o principal espaço de convivência.

Cultura do medo é um conceito desenvolvido pelo sociólogo Frank Furedi e popularizado por Barry Glassner: a ideia de que o medo coletivo pode ser fabricado sem que o perigo real tenha aumentado nem um pouco. Só a cobertura dele aumenta. Glassner tem um número que resume bem isso. Nos Estados Unidos, num período em que a criminalidade caiu cerca de 20%, a cobertura sobre violência na imprensa cresceu 600%. Vale lembrar do nosso próprio gráfico de homicídios lá em cima: a taxa no Brasil também vem caindo desde 2017. Mas alguém sente isso no dia a dia?

Furedi explica que o medo que mais pesa numa sociedade quase nunca vem da experiência direta das pessoas. Vem do que a mídia repete. E quando o medo para de responder ao risco real e passa a se alimentar sozinho, ele corrói a confiança do mesmo jeito que a violência de verdade corroeria — só que sem precisar que nada aconteça de fato. Para mim, a síntese é óbvia, mas é como se o país estivesse passando por um episódio de saúde mental, e não dá para simplesmente dizer às pessoas o que está acontecendo na primeira sessão de terapia — elas têm que passar por um processo dolorosamente longo até descobrirem isso sozinhas. Vai exigir uma mudança geracional, um novo conjunto de políticas, e uma geração inteira disposta a parar de brigar o suficiente para reconstruir alguma coisa em conjunto.

Então, onde isso nos deixa?

Se nem o império americano — o protótipo da alta confiança segundo o próprio Fukuyama — está imune a essa erosão, fica difícil acreditar que a cultura do medo vai resolver sozinha o que ela mesma ajudou a quebrar. E é justamente por isso que uma sociedade de alta confiança real — onde dá para andar tranquilo pela rua, num bairro, com vizinhos de carne e osso e fechar negócio com um aperto de mão e confiar que as instituições vão funcionar, isto está virando um bem cada vez mais raro, e cada vez mais valioso. A pergunta não é mais se o Brasil vai se tornar uma sociedade de alta confiança. É se você vai ficar tempo suficiente para descobrir.